Material utilizado nas clínicas de Reabilitação / Recuperação no Brasil.

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PREVENÇÃO DE RECAÍDA

Alessandro Alves

“Noventa por cento do sucesso se baseia
simplesmente em insistir”.
Woody Allen

A recaída tem sido descrita tanto como um resultado –
a visão dicotômica de que a pessoa está doente ou
bem – e um processo – abrangendo qualquer
transgressão na mudança de comportamento.

 

As origens do termo recaída derivam de um modelo
médico, indicando o retorno a um estado de doença
após um período de remissão, mas esta definição tem
sido diluída e aplicada a vários comportamentos.

 

Na atualidade, os conhecimentos teóricos e clínicos
desenvolvidos pelo Dr. Alan Marlatt, junto com seus
colaboradores, no Centro de Pesquisa de
Comportamentos Adictivos na Universidade de
Washington têm acrescentado muito para aqueles
profissionais que se propõem a militar nessa área.
Muito do que vamos estudar é oriundo de suas
publicações ou de revisões sobre as mesmas.

 

O principal objetivo da PREVENÇÃO DE RECAÍDA (PR)
é tratar o problema da recaída e gerar técnicas para
prevenir ou manejar sua ocorrência.

 

Baseada em uma estrutura cognitivo comportamental, a PR busca
identificar situações de alto risco, em que um indivíduo é vulnerável à recaída, e usar estratégias de
enfrentamento cognitivas e comportamentais para
prevenir futuras recaídas em situações similares. A PR
pode ser descrita como uma estratégia de prevenção
com dois objetivos específicos:

1. Prevenir um lapso inicial e manter a abstinência.
2. Proporcionar o manejo do lapso quando de sua
ocorrência, a fim de prevenir uma recaída.

 

O objetivo fundamental é proporcionar habilidades
de prevenção de uma recaída completa,
independentemente da situação ou dos fatores de
risco iminentes.

MAS O QUE É LAPSO?

O lapso é um breve momento de retorno ao
comportamento anterior. É altamente provável quando
os indivíduos tentam mudar o comportamento
problema.

 

Um resultado possível, seguindo o revés
inicial, é o retorno ao padrão de comportamento
disfuncional anterior, aí então temos a recaída.

 

Outro resultado possível é o indivíduo “voltar” à direção da
mudança positiva. Independentemente de como se
define a recaída, uma interpretação geral das
pesquisas de psicoterapia de vários transtornos de
comportamento revela que a “recaída” pode ser o
denominador comum no tratamento de problemas
psicológicos.

 

Ou seja, a maioria dos indivíduos que faz
uma tentativa de mudar o próprio comportamento em
um determinado objetivo (por exemplo, perder peso,
reduzir a hipertensão, parar de fumar, etc.), experimenta lapsos que frequentemente conduzem à
recaída.

 

Os indivíduos que optam por ceder podem ser
vulneráveis ao “Efeito de Violação da Abstinência”
(EVA), que é a auto responsabilização, a culpa e a
percepção da perda de controle muitas vezes
vivenciada pelos indivíduos após a violação de regras
auto impostas. O EVA contém um componente afetivo
e um componente cognitivo.

 

O componente afetivo
está relacionado a sentimentos de culpa, vergonha e
desesperança com frequência desencadeados pela
discrepância entre sua identidade anterior como um
abstêmio e seu atual comportamento de lapso. O
componente cognitivo, baseado na teoria da
atribuição, supõe que, se o indivíduo atribui um lapso a
fatores internos, globais e incontroláveis, aumenta o
risco de recaída. Entretanto, se o indivíduo encara o
lapso como externo, não estável e controlável, então a
probabilidade de recaída diminui.

O MAPA DA RECAÍDA

A PR combina o treinamento de habilidades
comportamentais com intervenções cognitivas
destinadas a prevenir ou limitar a ocorrência de
episódios de recaída.

 

O tratamento de PR começa com
a avaliação dos potenciais riscos interpessoais,
intrapessoais, ambientais e fisiológicos de recaída e
os fatores ou situações que podem precipitá-la. Unindo
tudo isso, terapeuta e paciente podem trabalhar juntos
no desenvolvimento de “mapas de recaída”, que são
análises de possíveis resultados que podem ser
associados a diferentes escolhas em situações de alto
risco.

 

O mapeamento de possíveis cenários auxilia a
preparar os pacientes a lidar com as situações e usar respostas de enfrentamento apropriadas.

 

O exercício de identificar e ensaiar possíveis
situações de alto risco e estratégias de enfrentamento
efetivas destina-se a melhorar a autoeficácia do
paciente e prevenir a incidência de um lapso. Todos
nós encontrar maneiras de lidar com situações de
risco ou de “stress”.

 

As respostas se tornam
mecanismos de adaptação, que podem ou não ser
eficazes ou inofensivos. Seguem exemplos.
Respostas positivas de enfrentamento:

Ouvir música
 Brincar com um animal de estimação
 Rir ou chorar
 Sair com um amigo em recuperação (shopping,
cinema, restaurante)
 Tomar um banho
 Escrita, pintura ou outra atividade criativa.
 Prece ou meditação
 Exercício físico ou ficar ao ar livre para desfrutar
da natureza.
 Discutir as situações com um amigo
 Jardinagem ou fazer reparos em casa
 Praticar a respiração profunda
Respostas negativas de enfrentamento
 Criticar a si mesmo demasiadamente
 Dirigir rápido em um carro
 Roer as unhas
 Tornar-se agressiva ou violenta (bater em alguém,
atirar ou chutar alguma coisa)
 Comer demais ou muito pouco
 Beber muito café
 Gritar com o seu cônjuge, filhos ou amigos.
 Evitar o contato social

DETERMINANTES DO LAPSO E DA RECAÍDA

Determinantes intrapessoais

Autoeficácia

A autoeficácia é definida como o grau de confiança do
indivíduo em sua própria capacidade de realizar um
determinado comportamento em um contexto
específico.

Expectativas de resultado

As expectativas de resultado quanto ao uso de drogas
referem-se à antecipação dos efeitos que um indivíduo
espera obterem consequência do consumo de álcool
ou droga.

 

As expectativas de um indivíduo podem
relacionar-se aos efeitos físicos, psicológicos ou
comportamentais do álcool, e os efeitos esperados não
correspondem necessariamente aos efeitos reais
vivenciados após o consumo.

 

Por exemplo, um
indivíduo pode esperar se sentir mais relaxado (físico),
mais feliz (psicológico) e mais sociável
(comportamental) depois de ingerir álcool, mas a
experiência real do indivíduo pode incluir tensão
aumentada (físico), tristeza (psicológico) e retraimento
(comportamental).

 

Motivação

“O caminho comum e final para o uso do álcool
é motivacional”.
Essa idéia ligava-se inerentemente à idéia de
expectativas positivas sobre os efeitos do álcool,
como descrito pela teoria da expectativa, mas é
também estimulada a noção de que a motivação para beber constitui componente chave preditiva da
mudança de comportamento. A motivação pode se
relacionar ao processo de recaída de duas maneiras
distintas:

 

a motivação para a mudança de
comportamento positiva e a motivação ao
envolvimento em comportamento-problema.

Enfrentamento

 

Com base no modelo cognitivo-comportamental de
recaída, o preditor mais importante de recaída é a
capacidade do indivíduo de utilizar estratégias de
enfrentamento efetivas ao lidar com situações de alto
risco. O enfrentamento inclui tanto estratégias
cognitivas quanto comportamentais destinadas a
reduzir o risco ou conseguir gratificação em uma dada
situação.

Estados emocionais

 

O uso excessivo de substâncias é motivado pela
regulação afetiva, tanto positiva quanto negativa.
O uso de substâncias é com frequência um reforço
para os pacientes, levando o indivíduo a se envolver
mais profundamente no futuro. Muitas vezes o uso de
substâncias proporciona reforço negativo via a
melhora de um estado afetivo desagradável, como
sintomas físicos de abstinência.

 

Estudiosos
descobriram que os adictos de cocaína apresentam
solidão (62,1%), depressão (55,8%), tensão (55,8%) e
raiva (40%) no dia de uma recaída; uma percentagem
menor da amostra apresentou um extremo bem estar
(37,9%) e excitação (33,7%).

 

Fissura

 

A fissura é possivelmente o conceito mais amplamente
estudado e o menos entendido no estudo da adicção
de droga. Pacientes, clínicos e pesquisadores com
frequência descrevem a fissura como um terrível
adversário na recuperação e contribuidora para a
persistência dos transtornos adictivos. A história da
pesquisa sobre a fissura de álcool remonta a 1955,
onde foram descritos tanto os tipos de fissuras físicas
(indicados por sintomas de abstinência) quanto
psicológicos (relacionados a expectativas de resultado
e a premência).

 

Posteriormente, a fissura foi associada
com uma perda de controle e com a incapacidade de
se abster do álcool.

 

Acredita-se como possível, dentro
do modelo cognitivo comportamental, que a
experiência subjetiva da fissura não é preditiva de
recaída, mas os mecanismos subjetivos e correlatos
da fissura são preditivos de recaída.
Determinantes Interpessoais

Apoio Social

Além das influências intrapessoais descritas
anteriormente, o apoio social desempenha um papel
fundamental como determinante interpessoal de
recaída.

 

O apoio social positivo é extremamente
preditivo dos índices de abstinência de longo prazo em
vários comportamentos adictivos.

 

Similarmente, o
apoio social negativo, na forma de conflito
interpessoal, e a pressão social para o uso de
substâncias têm sido relacionados a um risco maior de
recaída.

 

A pressão social pode ser direta, quando os
pares tentam convencer o sujeito a usar uma
substância, ou indireta, através do modelo (por
exemplo, um amigo pede uma bebida no jantar) e/ou da exposição ao gatilho (por exemplo, amigos que têm os
objetos para o uso da droga em casa).

 

Também se
observa que o tamanho da rede social e a percepção
da qualidade do apoio social são preditores da recaída.
Do mesmo modo, os traços de personalidade
antissocial que tendem a impedir relacionamentos
sociais positivos são com frequências associados ao
risco aumentado de recaída.

 

COMO VAMOS PROCEDER

 

MODELO MATRIX:

 

Abordagem ambulatorial intensiva
destinada a integrar várias intervenções, que inclui:

 Sessões individuais
 Materiais de TCC apresentados em grupo
 Educação familiar
 Exames de urina para monitorar abstinência

O objetivo principal da PR no Modelo Matrix é que o
grupo proporcione um fórum para que as pessoas em
tratamento para abuso de substâncias recebam
assistência na questão da recaída, que deve ser
alcançando almejando:

 Pacientes interagindo com outras pessoas com
problemas comuns
 Apresentar habilidades e conceitos específicos da
TCC
 Promover a coesão e o reforço entre os membros
do grupo
 Aliviar o isolamento que muitos indivíduos recém-
abstinentes experimentam como resultado da
perda da rede de amigos que usam droga

PRINCIPAIS TÉCNICAS E INTERVENÇÕES

Há uma série de manuais e protocolos à disposição, o
que significa que não há uma técnica 100% eficaz ou
aceita incondicionalmente. As abordagens de amplo
espectro em um grupo de PR incluem uma série de
habilidades para estimular ou manter a abstinência, a
saber:

 Reduzir disponibilidade e exposição à droga e
gatilhos relacionados (que variam muito para
cada indivíduo, mas incluem, por exemplo,
dinheiro, objetos relacionados ao uso, etc.).
 Estimular a decisão de parar de usar explorando
as consequências do uso, positivas e negativas.
  Automonitoramento e identificação, conduzindo
análises funcionais do uso de substâncias.
  Reconhecer a fissura condicionada e desenvolver
estratégias para enfrentá-la.
  Identificar decisões aparentemente irrelevantes
que podem culminar em situações de risco.
  Preparar para emergências e enfrentamento da
recaída no uso de substâncias.
  Desenvolver habilidades de recusa da droga.
 Identificar / perceber e confrontar pensamentos sobre droga.

 

Baseado em Terence Gorski. Estudioso e especialista na área de dependência química, tanto alcoólica quanto outras drogas. Valci Silva.

 

 

www.capitalremocoes.com.br

PPR Plano de Prevenção De Recaida
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